Imagem capa - Do Caos a Lama - Nosso olhar sobre a maior tragédia ambiental do país por Claudia e Victor Fotografias
Projetos Fotográficos

Do Caos a Lama - Nosso olhar sobre a maior tragédia ambiental do país




  Por Victor Tavares


JUSTIÇA?


   Há cerca de dois anos venho acompanhando as notícias relacionadas ao desastre ocorrido em Mariana, Minas Gerais. O lugar que era conhecido como uma das cidades históricas mais importantes do país, virou sinônimo de tragédia, mortes e lama.

   Tragédias ambientais não são novidade no nosso país, mas essa em especial me tocou muito desde o início, talvez pelo fato de ter varrido do mapa três comunidades inteiras e ter atingido toda a bacia do Rio Doce, chegando ao meu Estado, o Espírito Santo. 

   Fui movido desde então por uma profunda vontade de visitar os locais atingidos. Queria ver de perto as ruínas, conversar com as pessoas e entender pelo meu ponto de vista o que havia acontecido. Eu não entendia essa vontade, mas ela veio e me atordoou durante esses dois anos, quando finalmente consegui uma oportunidade para viajar até lá.




   Ainda era manhã quando eu e minha esposa chegamos em Mariana. Procurávamos pelas ruas históricas algum sinal que nos remetesse àquele dia 5 de Novembro de 2015. Caminhamos um bom tempo pelo Centro e confesso que ainda não entendia o motivo de estarmos ali. Afinal, em quê eu poderia contribuir para atenuar os efeitos da tragédia? Que vontade foi essa que nos trouxe até ali? Haveria algo a fazer pelos atingidos? 



"Como num estalo entendi que nós, eu e minha esposa, estávamos ali buscando justiça"


   Foi em meio a esses devaneios que algo me chamou a atenção: Um Pelourinho. Bem no Centro da cidade existe esse monumento que representa a justiça e sua aplicação, com mãos segurando uma balança e uma espada. Como num estalo entendi que nós, eu e minha esposa, estávamos ali buscando justiça. Essa era a palavra chave que estávamos buscando para justificar nossa presença ali. Queríamos acompanhar de perto o que vem acontecendo para confirmar se estava havendo justiça para com os atingidos. Percebemos que através das nossas fotos poderíamos lembrar a sociedade a seguir cobrando os responsáveis para que esse fato não seja lembrado como mais um dentre tantos crimes sem solução.






PARACATU DE BAIXO


   Eu tinha um roteiro em mente que seria talvez o mais óbvio: Visitar as comunidades atingidas na ordem em que a lama as atingiu. Com isso, nossa primeira parada seria em Bento Rodrigues. Porém, fiquei sabendo que o acesso lá era restrito e permitido somente com a presença da Defesa Civil local. Por sorte, consegui agendar uma visita acompanhado da defesa civil para apenas dois dias depois e por isso tive de alterar o roteiro, começando em Paracatu de Baixo.



"Todas as outras (casas) que ficavam na parte baixa foram destruídas pela enxurrada que passou por ali."


   De Mariana foram cerca de 40km até avistarmos os primeiros sinais da tragédia. Eram as primeiras casas (ou o que restaram delas ) protegidas por cercas instaladas pela Fundação Renova.  Aquela altura, aliás, já tínhamos visto muitos carros e caminhões de empreiteiras que iam e vinham sem parar, um sinal de que a tal Fundação Renova estava presente por ali.




   Estacionamos o carro e começamos nossa caminhada pelo vilarejo. Logo vimos que as poucas casas que restaram encontravam-se em uma rua mais alta. Foram salvas pela geografia local. Todas as outras que ficavam na parte baixa foram destruídas pela enxurrada que passou por ali. Além das casas, o comércio, plantações e criações foram levados em questão de minutos. 

   Era triste demais saber que aquele monte de escombros já foi uma comunidade. Fiquei impressionado com o que a onda de lama fez com Paracatu de Baixo e me perguntava todo o tempo sobre o que poderia ter acontecido com os moradores dali. Será que foram indenizados? Receberam uma casa nova? Sofreram algum trauma após a tragédia?



Clique aqui e veja mais fotos de Paracatu de Baixo.



ESCOLA DE PARACATU


   Percebi apenas duas construções ainda de pé em Paracatu de Baixo:  A igreja e a Escola. No dia em que visitamos o vilarejo, a igreja estava cercada por tapumes e por isso não conseguimos fotos internas da construção. A Escola, porém, tinha acesso livre e não hesitamos em entrar.



"Víamos objetos espalhados por todo o lugar como livros, materiais escolares e brinquedos."


   A enxurrada de lama atingiu o segundo andar do prédio da Escola, inutilizando-o definitivamente. Calculei rapidamente em 5 metros a marca de lama que víamos na fachada.  Ela é marcante e amedrontadora! Ainda naquele dia existia cerca de 1 metro de lama seca no piso térreo. Cada sala que visitávamos  tínhamos de abaixar para não bater a cabeça no marco da porta. Víamos objetos espalhados por todo o lugar como livros, materiais escolares e brinquedos.




 

  No andar superior, as paredes exibiam mensagens de pessoas que visitaram o lugar antes de nós, todos revoltados com a perda daquela escola que fez parte da história de muitas pessoas ao longo de muitos anos. A Samarco era o alvo principal das mensagens de revolta, mas a mensagem que mais me chamou atenção foi: “ Trás o nosso Paracatu de volta, por favor...” .

   Na parede de uma das salas do andar superior estava um enorme calendário de 2015 com todos os dias marcados com um “x” até o dia 05 de Novembro.  Foi algo que me arrepiou e me mostrou que dali pra frente a escola não teve mais história.





SR. ANTÔNIO


   Escombros são apenas escombros quando não pensamos nas histórias vividas ali. Quando pensamos nas pessoas, os escombros e ruínas se tornam um enorme memorial a céu aberto. Todas as cerca de 50 casas destruídas em Paracatu de Baixo tinham famílias vivendo nelas e era pelas pessoas que estávamos ali.



"A princípio aquele personagem tinha poucas ligações com o local, mas logo fomos sabendo mais e mais a cada ruínas que visitávamos."


   Desde a primeira casa que visitamos fomos acompanhados por um senhor que de maneira espontânea nos acompanhou boa parte do tempo. Perguntei se ele estava no distrito no dia da tragédia e ele disse que não. Disse ainda que estava ali para cuidar de uma casa (umas das poucas que restaram ) e que no “dia da lama” estava em Mariana, onde mora. A princípio aquele personagem tinha poucas ligações com o local, mas logo fomos sabendo mais e mais a cada ruína que visitávamos.




   Apesar de morar em Mariana há alguns anos, o senhor Antônio, 65 anos, nasceu e morou boa parte da vida em Paracatu de Baixo. Ali casou, criou os filhos e estreitou laços com boa parte dos antigos moradores . A cada história que ele contava as ruínas tomavam uma dimensão ainda maior. Paredes elameadas viravam um bar, um comércio, uma pastelaria, a casa da filha... Ele nos guiou pela Escola e do alto do segundo andar daquele prédio avistou onde ficava a casa do pai e de um irmão. Ele dizia “dali até ali era tudo do meu pai, espia só”. Dizia ainda que seu pai, com mais de 80 anos, não gostava mais de ir a Paracatu e ver o que restou do lugar. “Ele está com depressão, chora e fica muito triste quando vem aqui”, contou o Sr. Antônio.



"Como provar o que tinham para receber futuras indenizações?"

  

   Dentre tantas histórias que escutamos me marcou a de uma senhora que vivia da criação e venda de galinhas. “Vinha gente de longe comprar galinha com ela”, dizia ele. Em poucos minutos toda a sua criação ( e sua renda ) foi levada pela enxurrada.  Assim como ela, muitos outros atingidos perderam criações, animais de estimação, hortas, plantações. Como provar o que tinham para receber futuras indenizações?

   Após ensaiar a volta para o seu trabalho algumas vezes, o sr. Antônio  finalmente apertou nossa mão e disse para ficarmos a vontade. Sugeriu visitarmos as ruínas da casa do pai dele que ficam por trás da igreja e seguiu seu caminho, mal sabendo o quanto fomos enriquecidos pela presença dele com a gente.




FUNDAÇÃO RENOVA


   Por todo o caminho que percorremos, o trânsito de veículos de empreiteiras foi intenso, com operários indo e vindo.  Com isso pude perceber algumas das ações da chamada Fundação Renova, instituição criada para gerir o dinheiro alocado para a reconstrução e reparo do que foi destruído, tanto nas comunidades quanto no rios e matas. É uma intermediária entre os atingidos e as grandes mineradoras.



"Pelo que é relatado no site, muita coisa tem sido feita nos últimos dois anos."


    O grande questionamento desde a tragédia sempre foi em relação a impunidade e viajei para Mariana com isso na cabeça. Ver tantos trabalhadores e obras no caminho me trouxe um pouco de alívio, pois a princípio as coisas estavam avançando. O questionamento que seguiu então foi: Será que tem sido suficiente?

   Numa rápida busca na internet logo achamos o site da Fundação Renova. Ali, são relatadas as ações que tem sido feitas em um formato prático e bastante acessível para quem acessa. Existe um canal direto para relatar dificuldades e tirar dúvidas . Pelo que é relatado no site, muita coisa tem sido feita nos últimos dois anos.




AO LONGO DO RIO


   Deixando Paracatu de Baixo, seguimos por estrada de chão em direção à Barra Longa. Foram cerca de 40km beirando o Rio Gualaxo do Norte, o primeiro atingido pela enxurrada de rejeitos de mineração. 

   Ao longo do caminho, vimos muitas intervenções nas margens do rio, muitas mesmo. De tempos em tempos haviam caminhões, tratores e pick ups, além de caminhões pipa molhando a estrada para minimizar a poeira levantada pelo trânsito de veículos pesados. Afinal, alguma coisa estava sendo feita. Haviam barreiras e trabalhadores operando placas de “ Pare e siga” em empreitadas como reconstrução de pontes, reparo de casas e melhoramentos na própria estrada.




   Até Barra Longa, não houve um quilômetro sequer em que não víssemos alguma marca da passagem da lama nas árvores, em casas e no próprio rio, que brilhava com os resquícios de minério que ainda estavam ali. Em Gesteira, pequeno vilarejo que também sumiu do mapa, paramos para conhecer as marcas da lama na igreja local e em uma casa que conseguiu ficar de pé. Era a única a ficar de pé naquela rua. 



"Meu coração apertou mais uma vez em pensar que aquele cenário de guerra já abrigou uma família."


   Fiquei surpreso com o tamanho da casa, que parecia fora dos padrões locais. Haviam muitos quartos e um extenso corredor que nos levava da sala até a cozinha. Ainda haviam alguns poucos móveis revirados como um sofá e uma poltrona de amamentar. Meu coração apertou mais uma vez em pensar que aquele cenário de guerra já abrigou uma família.



Clique aqui e veja mais fotos de Gesteira





   

   Seguimos de Gesteira por uma estrada de chão bem cuidada. As obras nas margens do rio Gualaxo do Norte pareciam segurar a entrada de mais rejeitos, mas logo na chegada de Barra Longa percebemos que a famosa lama segue descendo rio abaixo.  No encontro com o Rio do Carmo, é nítida a diferença de cores na água, demonstrando claramente que ainda há muito o que fazer.




BARRA LONGA


   A maior movimentação de trabalhadores que vimos até então se concentrava em Barra Longa. Logo na chegada da cidade, trabalhadores controlavam a entrada e saída através da estreita ponte sobre o Rio do Carmo. Haviam muitos caminhões e tratores, trânsito que com toda a certeza mudou a rotina da cidade nos últimos dois anos. Barra longa passou de cidade pacata à sede de muitas das frentes de trabalho que tem sido feitas na região.



" Apesar da recuperação, não foi difícil ver sinais de indignação e revolta em faixas e pixações."


   Nosso objetivo era conhecer a praça principal que havia sido soterrada em 2015 e o que vimos foi uma praça totalmente nova e revitalizada. Já não haviam muitos sinais da lama, a não ser por uma casa que vi na beira do rio do Carmo. Pelas informações do site da Fundação Renova, Barra Longa é um dos locais mais adiantados na recuperação, com quase 100 casas reformadas ou reconstruídas.

   Apesar da recuperação , não foi difícil ver sinais de indignação e revolta em faixas e pixações. Obras de grande porte e trânsito pesado de caminhões e tratores eram transtornos que a população local não estava acostumada. Além disso, existiam informações de um grande aumento nos casos de problemas respiratórios por conta da poeira constante que assolava a cidade, poeira que especialistas se dividiam entre ser tóxica ou não.



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BENTO RODRIGUES


   A previsão do tempo indicava chuva constante para a região de Mariana e isso nos deixou apreensivos. Já havia chovido bastante no dia anterior. Corríamos o risco de não conseguir visitar o principal local atingido, Bento Rodrigues, por dificuldades no acesso em caso de chuva. A Defesa Civil é quem decidiria se poderíamos ir ou não. Por sorte, a previsão do tempo falhou. Apesar do tempo carregado, não choveu em Mariana naquela manhã de quinta-feira.



"Muitas casas foram saqueadas logo após o ocorrido, o que aumentou em muito a dimensão da tragédia para os antigos moradores."


   No horário marcado, acompanhamos a Defesa Civil até Bento Rodrigues, cerca de 25km de viagem. A estrada até lá é sinuosa, com muitas subidas e descidas. Pela geografia local deu pra perceber que o distrito fica num vale cercado por montanhas.

   Na chegada de Bento Rodrigues passamos por uma guarita que controlava a entrada no lugar. Muitas casas foram saqueadas logo após o ocorrido, o que aumentou em muito a dimensão da tragédia para os antigos moradores. Uma das funções da guarita que estava ali era tentar garantir que saqueadores não voltassem a atacar.




   Tivemos 1 hora para percorrer as ruas do distrito. Logo que começamos, fomos surpreendidos por 19 cruzes fincadas em pequenas montanhas de rejeitos . Elas lembravam os mortos na tragédia: 14 operários das barragens, 4 moradores e 1 turista que visitava familiares em Bento Rodrigues. Alguns dos corpos foram achados a quase 100km dali, na barragem de Candonga. Outros, nunca foram achados.



"Numa das paredes uma frase dizia: Vivi grandes momentos da minha vida aqui”.


   O estado das ruínas nos deu a noção de quão forte a enxurrada passou por ali. Diferente de Paracatu, o que restou da escola local foram apenas paredes e poucos detalhes que lembravam que ali houve alguma atividade, como um quadro e uma carteira retorcida. No meio do mato vi o topo do que parecia ser um balanço. Numa das paredes uma frase dizia “Vivi grandes momentos da minha vida aqui”.





   Ainda existiam objetos espalhados em meio aos escombros como geladeiras e fogões retorcidos. No que parecia ter sido um bar, uma mesa de totó presa na porta mostrava os bonecos dos jogadores soterrados por rejeitos.

   Encerrado o nosso tempo, fomos liberados pela Defesa Civil para pegar o caminho de volta para Mariana, levando conosco memórias que ficarão pra sempre marcadas em nós. Além disso, tínhamos fotos  para manter viva a noção de quão destrutivas podem ser as atividades mineradoras da região, embora vitais para a economia do país. Com isso, uma nova pergunta me veio a mente: Até que ponto vale a pena impactar as pequenas comunidades em nome do progresso econômico?




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O GRITO DOS ATINGIDOS


   De volta a Mariana nos vimos presos em um engarrafamento incomum para aquela cidade, mesmo em dias de semana. Um guarda me informou que se tratava de um protesto dos atingidos pelo rompimento da barragem da Samarco, um dos vários que acontecem na cidade de tempos em tempos. Logo estacionamos o carro e acompanhamos o protesto, que acontecia em frente ao fórum.  



“Queremos nossa paz e sossego de volta, aqui não é o nosso lugar. Reassentamento JÁ!”


Ali, alguns dos moradores das comunidades atingidas carregavam cartazes clamando por Justiça. Outros cartazes diziam “Que justiça é essa em que o criminoso é que diz como devemos ser indenizados?” e “Queremos nossa paz e sossego de volta, aqui não é o nosso lugar. Reassentamento JÁ!”




   Dentre aqueles que protestavam, vi um rosto que me pareceu familiar. Era o senhor Jairo, dono de um bar atingido em Paracatu de Baixo e que conhecemos rapidamente em nossa visita. Foi ele que nos contou que no dia do rompimento, um helicóptero desceu na comunidade na noite do dia 05 avisando que a enxurrada estava a caminho. Os moradores subiram para a parte alta e apenas escutaram o barulho da lama arrastando as casas.



"Já faziam 2 anos em que eles moravam em locais nos quais não gostariam de estar."


A feição do senhor Jairo me parecia de alguém que já não aguentava mais esperar por soluções. Me parecia abatido, cansado e sem ânimo para mais um protesto.

   Aquele protesto acontecia exatamente um mês antes da tragédia completar 2 anos.  Já faziam 2 anos em que eles moravam em locais nos quais não gostariam de estar. Acostumados com a vida simples e tranquila do campo, foram obrigados a se mudar para a cidade de maneira abrupta e repentina, tendo deixado para trás além de objetos pessoais, as suas histórias.




   Pelo que percebemos ao longo do caminho, as ações corretivas estão acontecendo. Boa parte das famílias que protestavam tem recebido auxílio para moradia e alimentação, mas o que eles queriam de verdade eram suas comunidades de volta.

Entendi perfeitamente o protesto, pois tinha visto com meus próprios olhos a situação em que se encontravam as comunidades. É algo desolador!

Terminado nosso tempo em Mariana, voltamos com mais perguntas do que respostas. Porém, voltamos com a certeza de que mais do que nunca nossa voz deveria se juntar ao grito daqueles atingidos.

   Que o nosso olhar diante dessa tragédia inspire outras pessoas a cobrar os responsáveis por seu erros. Que a natureza seja recuperada e que os atingidos sejam ressarcidos de maneira justa por suas perdas. As vidas perdidas nunca mais voltarão, mas que essa tragédia sirva de lição para que nunca mais volte a acontecer.

   Não podemos esquecer.